Materiais Técnicos

Parâmetros de avaliação da qualidade da calda de pulverização

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O material traz informações sobre a importânica da condutividade elétrica e pH da calda de pulverização para a redução da severidade de doenças. Como exemplo, mostram-se dados do controle da ferrugem da soja com os produtos azoxistrobina e ciproconazol isolados e em mistura em diferentes pH´s.

A operação de aplicações conjuntas de defensivos agrícolas, adjuvantes e fertilizantes foliares tem crescido consideravelmente.


 

Em virtude de muitas destas aplicações serem posicionadas no mesmo estádio da cultura, o produtor rural não encontra outra alternativa a não ser colocar os produtos juntos no tanque do pulverizador para inclusive, reduzir os custos operacionais. Contudo, a qualidade da calda de aplicação pode ficar singificativamente comprometida, prejudicando a eficácia dos produtos.

Infelizmente, essa mistura de produtos no tanque de pulverização é um impasse na legislação, visto que não fica claro sua prática. Esta operação era permitida até o ano de 2002 quando o Decreto Federal n°4074 de janeiro deste ano, artigo 66, parágrafo único, menciona que os produtos somente poderão ser prescritos em receita agronômica se constar nas recomendações de uso no rótulo e bula do produto.

Na sequência, a Instrução Normativa 46 de julho de 2002, artigo 1°, determina às empresas a retirada da mistura de tanque dos rótulos e bulas de seus produtos. Assim, como as misturas foram retiradas dos rótulos e bulas, o engenheiro agrônomo não pode receitá-las. Apesar disso, existem diversos pontos a serem levados em consideração com relação a qualidade da calda de pulverização. Prioritariamente, a origem da água utilizada e as ferramentas para avaliação química da solução formada para pulverização.

 

Qualidade da água

A água é o solvente universal usada como principal veículo em aplicações de produtos de proteção vegetal, constituindo mais de 95% do volume de pulverização. As propriedades da água utilizada para as pulverizações podem influenciar de maneira significativa o desempenho dos produtos nela misturados.

Ao contrário da água pura, a qualidade das águas subterrâneas é variável entre as fontes e pode ser determinada por vários fatores, principalmente condutividade elétrica e pH, além de dureza, turbidez e temperatura.

 

Condutividade elétrica

A condutividade elétrica (CE) representa a concentração de íons na solução que são capazes de conduzir corrente e, por conseguinte causar dissociação de moléculas.

A presença de cátions livres dissolvidos como cálcio, magnésio, ferro, zinco, alumínio, manganês, sódio, potássio, dentre outros, podem ser originários de produtos não quelatizados e influenciar significativamente a eficácia dos demais.

Quanto maior a CE, maior é a presença de íons em suspensão que podem interagir com as moléculas dos produtos (Carlson e Burnside, 1984). Ainda de acordo com os autores, valores de CE de 0,4 dS.m-1 já são bastante elevados, indicando possivel queda na eficácia do produto (Figura 1).

Valores de Condutividade Elétrica (CE) de diferentes fontes e pH de água

pH

O valor do pH descreve a acidez (concentração de íons hidrogênio) ou a alcalinidade de uma solução. A escala varia de 0 a 14, sendo valores menores que sete pH ácido (baixo), igual a sete neutro e valores maiores que sete pH alcalino (elevado).

É importante lembrar que pequenas mudanças na escala de pH representam grandes mudanças na acidez ou alcalinidade, por exemplo, um pH 5,0 é 10 vezes mais ácido que pH 6,0 e 100 vezes mais ácido do que pH 7,0, esta relação é válida também para pH alcalino.  

Em cada formulação de ativo isolado e sua mistura possuem uma faixa de pH ideal quando misturados somente com o veículo água. Na figura 2 são apresentados triazol, estrobilurina e o produto formulado da mistura dos mesmos ativos, mostrando que os triazóis tamponam em pH 4 a 5, já estrobilurinas e misturas em pH 5 a 6,5. Grandes alterações nestes valores de pH podem comprometer a eficácia dos produtos utilizados.

pH final dos produtos formulados de ativos isolados e mistura em água a pH 6.

pH da calda e eficácia de defensivos

Valores de pH muito ácidos e muito alcalinos não só afetam a carga de moléculas químicas, como podem afetar também a sua estabilidade, influenciando a sua meia-vida.


A meia-vida de um produto é o período de tempo que leva para que ocorra 50% de hidrólise, ou seja, metade da quantidade de ingrediente sofra degradação. Em termos práticos, esta queda é representada pela menor eficiência do produto em controlar o alvo, resultando em menor período residual para próxima aplicação.

De acordo com Gheller, pH<3,5 corre risco de dissociação iônica e precipitação do produto com redução na solubilidade, aumentando os riscos de fitotoxicidade; já pH>7 podem sofrer hidrólise alcalina com degradação do ingrediente ativo, afetando a meia vida do produto. 

Para misturas de triazóis e estrobirulinas em mistura ou isolados verificou-se que quanto mais baixo o pH da calda, menor foi a eficiência de controle de ferrugem para todos os produtos. Esses resultados foram verificados através das maiores Áreas abaixo da curva de progresso da ferrugem em pH´s ácidos (Figura 3-5). 

Figura 3 - AACP de ferrugem da soja em função de diferentes pH da calda de pulverização composta por azoxistrobina + ciproconazol.
Figura 4 - AACP de ferrugem da soja em função de diferentes pH da calda de pulverização composta por azoxistrobina.
Figura 5 - AACP de ferrugem da soja em função de diferentes pH da calda de pulverização composta por ciproconazol.

Além disso, a redução na solubilidade de alguns produtos pode produzir partes em suspensão na solução. Essas frações insolubilizadas ou precipitados suspensos podem bloquear as pontas e peneiras dos bicos de pulverização diminuindo a quantidade de produto depositado sobre a superfície da planta, e portanto, diminuindo a quantidade de ingrediente ativo no alvo.

Em geral, os inseticidas são mais suscetíveis a hidrólise do que fungicidas, herbicidas, desfolhantes ou reguladores de crescimento. Inseticidas organofosforados e carbamatos são mais suscetíveis do que os inseticidas hidrocarbonetos clorados. Alguns piretróides também exibem suscetibilidade à hidrólise.

Alguns pesticidas hidrolisam-se muito rápido e a velocidade de hidrólise pode ser acelerado no intervalo de pH de 8 a 9 (Deer & Beard, 2001) e para cada aumento de pH, a velocidade de hidrólise vai aumentar em cerca de 10 vezes. A gravidade das perdas devido a hidrólise é regulada pelo grau de alcalinidade da água, a susceptibilidade do defensivo, a quantidade de tempo que o produto está em contato com a água e da temperatura da mistura.

Severidade de ferrugem da soja no tratamento Azoxistrobina + Ciproconazol sob diferentes pH de calda, aos 28 dias após aparecimento das primeiras pústulas no tratamento testemunha.

 

Severidade de ferrugem da soja no tratamento Azoxistrobina sob diferentes pH de calda, aos 28 dias após aparecimento das primeiras pústulas no tratamento testemunha.
Severidade de ferrugem da soja no tratamento Ciproconazol sob diferentes pH de calda, aos 28 dias após aparecimento das primeiras pústulas no tratamento testemunha.

Ajuste do pH

Para superar o efeito antagonista do pH da água, ajustadores de pH podem ser usados para manter o pH adequado.

Antes de usar tampões de pH, consultar o rótulo do produto, já que alguns produtos são já formulados para atuar como um tampão de pH. Substâncias tamponantes podem ser usadas quando a água a ser utilizada estiver com um pH na faixa adequada (4 – 7) (Deer & Dead, 2001). O efeito tampão se atribui no momento da mistura, continua durante armazenamento no tanque e se mantém até que a água tenha evaporado a partir da gota de pulverização.

Alguns materiais, tais como fungicidas a base de cobre, incluindo sulfato básico de cobre e óxido de cobre, não devem ser tamponados com solução ácida, pois pode ocorrer solubilização de metais e produzir um efeito fitotóxico quando pulverizado sobre as plantas. Produtos utilizados para acidificar soluções podem ser usados isoladamente ou em combinação com adjuvantes ou fertilizantes foliares em situações em que a água tem caráter alcalino elevado. Várias substâncias ácidas (ácido muriático, cítrico, acético - vinagre, sulfatos etc.) podem ser usadas para reduzir o pH de águas de pulverização antes de colocar os produtos fitossanitários no tanque.

Como verificar o pH e a CE

Existem medidores digitais portáteis de pH e CE com boa acurácia.

Para condutividade elétrica o medidor vem calibrado de fábrica, não necessitando de tal operação. No entanto, para leitura de pH é indispensável a calibração com as soluções tampão de pH 4 e pH 7 para correta avaliação, caso contrário a leitura não é fidedigna. O uso do papel de tornassol pode não ser eficaz podendo gerar erros de leitura. Indicadores de pH líquidos de cor, como por exemplo, azul de bromotimol, são também disponíveis, os quais podem ser utilizados. Diferentes fontes de água, superficiais e subterrâneas, podem ter o pH alterado em função do tempo, alteração a qual se dá geralmente no sentido de um estado mais alcalino.

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